A procrastinação mais cara do Brasil durou 27 anos

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A procrastinação mais cara da história, em nível coletivo, foi a Reforma da Previdência porque custou, em quase 3 décadas, o equivalente a cerca de 80% do valor da atual dívida pública do Brasil.

Confira nesse artigo os dados que reuni para comprovar isso.


Por indicação do Antonio Leitão, Gerente Institucional do Instituto de Longevidade Mongeral Aegon, recebi um convite da Dra. Ana Cristina Canêdo para participar do X Congresso de Geriatria e Gerontologia. Este é o texto que serviu de base para a minha apresentação.

“Previdência: um assunto urgente” foi o tema proposto para o meu painel. E a minha intervenção precisava abordar as “Principais Mudanças e os Pontos Positivos”. Uma referência à Reforma da Previdência que acabara de ser finalizada.

Realmente esperamos por longos 26 anos para que uma reforma introduzisse um pouco mais de racionalidade, justiça e sustentabilidade no sistema previdenciário, com a introdução da idade mínima para o benefício programado de aposentadoria.

Fui um expectador privilegiado dessa procrastinação tão infeliz. Comecei a estudar esse assunto em 1993, na FIPE – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP (Universidade de São Paulo) -, sob a influência do Prof. Dr. Helio Zylberstajn. Na ocasião a FIPE trabalhava na elaboração da primeira proposta de Reforma da Previdência pós Constituição de 1988.

As pessoas são adeptas da procrastinação, mas os países também (e com Reformas da Previdência não seria diferente)

Como se sabe, procrastinar significa adiar uma ação necessária. Salvo em certas situações específicas, a procrastinação gera custos e prejuízos de bem-estar, emocionais ou financeiros.

O fenômeno da procrastinação tem sido estudado com mais atenção no nível das ações individuais, principalmente naquelas situações onde temos um prazo definido para executar tarefas. Um exemplo ilustrativo entre estudantes é a conhecida procrastinação para finalizar monografias, teses, trabalhos escolares e estudos para provas.

É exatamente este exemplo estudantil o ponto de partida de uma das apresentações do TED mais populares na internet, feita pelo escritor e estudioso da procrastinação Tim Urban. No momento em que escrevo esse texto, o vídeo dele legendado disponível no Youtube acumula quase 24 milhões de visualizações.

De forma didática e divertida, Urban descreve o que acontece dentro do cérebro de um “mestre da procrastinação”.

Pequenas e grandes procrastinações

Não vou dar spoiler para você que ainda não assistiu. Porém, o final do vídeo do Tim Urban traz uma mensagem importante para quem se preocupa com longevidade e envelhecimento, principalmente ao citar o ‘calendário da vida’ diante das grandes procrastinações praticadas pelo ser humano.

De fato, os estudos de psicologia comportamental e social, que ganharam grande relevância no pensamento econômico, começam a identificar os efeitos desastrosos das grandes procrastinações, de 2 tipos:

  • Individual: aquela onde não existe um prazo ou pressão externa para você cumprir uma tarefa (exemplo: sair de um relacionamento falido, mudar de carreira, guardar dinheiro para o futuro, começar a dieta, praticar exercícios físicos etc.)
  • Coletivo: onde os efeitos da procrastinação estão diluídos e a sociedade vai adiando sua resolução através da falta de ação dos seus representantes, seja por desincentivos eleitorais ou pela falta de pressão da opinião pública em geral.

Já começam a aparecer artigos e pesquisas buscando sistematizar e explicar essas modalidades de procrastinações coletivas. Referências interessantes (em inglês) podem ser encontradas aqui, aqui e aqui.

Um exemplo de procrastinação coletiva: o caso da Reforma da Previdência

Em recente entrevista ao portal InfoMoney, o economista e ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco vai direto ao ponto: “somos o país da procrastinação”.

O exagero nos sucessivos atrasos e adiamentos nas reformas econômicas e institucionais necessárias para tirar o país do atraso justificam o diagnóstico, de acordo com Franco.

No caso da Reforma da Previdência, fomos empurrando o problema esperando que o sistema fosse para a UTI, respirasse por aparelhos e ameaçasse a solvência do próprio Estado brasileiro.

Finalizada a reforma de 2019, constatamos que seria possível ter economizado mais de R$ 80 bilhões por ano com a Reforma.

Logo, teríamos acumulado quase R$ 3 trilhões de reais – em valores de hoje – caso tivéssemos feito a reforma em 1993, na primeira oportunidade que tivemos.

R$ 3 trilhões representam cerca de 80% da atual dívida pública brasileira, por exemplo. Aquela dívida que foi responsável pelo Brasil ostentar durante anos e anos o posto de maior taxa de juros do mundo. Um enorme prejuízo social que jamais saberemos o valor.

E não faltaram evidências racionais de que estávamos indo na direção errada.

No mapa abaixo, vemos como nestes 26 anos permanecemos sem uma regra de idade mínima, por exemplo.

Algo que só encontrava paralelo em um grupo muito pequeno de países com um quadro econômico e político sofrível, em sua maior parte. Veja:

Poucos países ainda não possuem regras de idade mínima na previdência social em 2019

Finalmente, na Reforma de 2019, introduzimos as respectivas idades de 65 e 62 anos para homens e mulheres.

Tais regras serão válidas para aqueles que entrarem no mercado de trabalho após a promulgação da Reforma. Para quem já está trabalhando, estarão disponíveis diversas regras de transição que preservam a expectativa de direito. Para quem já está aposentado, ao contrário de Grécia e Portugal, conseguimos não mexer em absolutamente nada.

Agora veja os 3 gráficos seguintes e perceba como, nesse aspecto da falta de idade mínima, a procrastinação da Reforma provocou distorções em nosso sistema que levaremos muitos anos para reverter.

1)    Os mais pobres, na prática, já se aposentam por idade

Fonte: Agência de checagem AosFatos.org a partir de dados oficiais

2)    O Brasil, mesmo com perfil etário ainda jovem, passou a gastar com previdência o mesmo que países ricos

Fonte: Agência de checagem AosFatos.org a partir de dados oficiais

3)    Como consequência direta, a despesa com previdência foi avançando sobre as finanças do Estado, ameaçando as contas públicas e as despesas com áreas extremamente essenciais

Fonte: Agência de checagem AosFatos.org a partir de dados oficiais

E por que a procrastinação foi tão longe na Reforma da Previdência?

No cérebro, temos aquele pequeno “macaco da gratificação instantânea” atrapalhando, como nos lembra o Tim Urban. Por outro lado, no nível coletivo, temos os mitos, as falsas crenças. De tanto serem repetidos, vão se cristalizando como verdades, resultando em paralisia social e procrastinação.

Em uma espécie de ilusão coletiva, a gente vai acreditando nelas e vai usando como desculpa para procrastinar.

Essa talvez seja uma evidência de que grandes transformações sociais, pelo menos nas democracias, só acontecem quando a sociedade como um todo, através da opinião pública, exerce pressão.

Alguns dos mitos e falsas crenças difundidos nesse período de procrastinação foram:

Mito # 1:
“Com os direitos inscritos na Constituição de 1988, agora o Brasil terá justiça social”

Mito #2:
“A repartição simples e o pacto de gerações é o único sistema possível de previdência para cuidar do nosso envelhecimento”

Mito #3:
“A Previdência brasileira é o maior programa de distribuição de renda do mundo”

Mito #4:
“É o pobre que vai pagar o custo da Reforma, pois ele vai se aposentar e morrer em seguida”

Mito #5:
“Basta taxar o capital e as grandes fortunas que resolve, ou recuperar a dívida das grandes empresas que resolve”

Mito #6:
“Existem outras soluções sem ter que fazer Reforma”

Mito #7:
“Não existe déficit”

Com o passar dos anos, infelizmente em um processo lento demais, essas falsas crenças foram sendo devidamente revertidas.

Na época de Itamar Franco, quando comecei a estudar o tema, um percentual muito pequeno da sociedade brasileira era a favor de algum tipo de reforma. Prevaleciam os mitos e falsas crenças.

No governo Bolsonaro, entretanto, esse quadro mudou – por diversas razões – e mais de 50% dos brasileiros passaram a apoiá-la. Mas muito menos devido a uma convicção política pregressa do atual presidente, que no ano anterior à eleição presidencial havia feito oposição à reforma da previdência proposta pelo governo Temer.

Conclusão

E o que vem agora?

Considerando que fizemos o que supostamente seria mais difícil enquanto sociedade, acredito que temos que incorporar, como indivíduos, uma nova visão sobre previdência diante da longevidade crescente.

A longevidade é uma coisa maravilhosa”, disse o Antônio Leitão nesse ótimo TEDx (começa após 1h17min do vídeo) realizado recentemente no Rio de Janeiro. Mas precisamos nos preparar para aproveitar essa condição.

Profissionais de saúde, de finanças e de outras disciplinas que lidam com cuidados preventivos, precisam ajudar as pessoas a superar as grandes procrastinações individuais que ainda atrapalham uma melhor preparação para a longevidade.

E precisamos fazer isso cada vez mais cedo!

Entre outras inúmeras ações nesse sentido, o Instituto de Longevidade Mongeral Aegon abraçou o tema da Longevidade Financeira como um dos seus grandes propósitos.

Dentro dessa iniciativa, criamos um Simulador de Longevidade Financeira, que já conta com milhares de acessos. Quer conhecer? Clique aqui.

Um grande abraço e até a próxima.

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